Carta de Notícias. setembro 2007 . Nº 002

 

 

 

 

Carta de Notícias sobre o Protocolo de Cartagena e a Convenção sobre Biodiversidade

EDITORIAL: Controlando a Vida

 

 

Estão avançando no Brasil diversas iniciativas com objetivo de restringir a livre utilização de sementes e dos recursos da agrobiodiversidade.


Promovidas principalmente pelas transnacionais de biotecnologia que já controlam o mercado de sementes, estas iniciativas caminham pelo menos em duas frentes: modificações na legislação para restringir ainda mais o controle dos agricultores sobre os recursos genéticos (sementes e mudas) e a pressão para autorização da utilização das “tecnologias genéticas de restrição de uso”.

 

Em toda a América Latina, estão sendo aprovadas leis que restringem ao máximo a livre utilização de sementes, proibindo-se práticas como o armazenamento,a reserva e a produção de sementes pelos próprios agricultores. Em 2007, uma das maiores causas de multa aplicadas pelo Ministério da Agricultura no Brasil foi a utilização de sementes guardadas para uso próprio em discordância com as exigências do Ministério. A bancada ruralista e o agronegócio exigem que o Governo modifique a lei de proteção aos cultivares, restringindo ainda mais a livre utilização de sementes.



Por outro lado, as empresas de biotecnologia sabem que o controle total sobre as sementes depende de uma saída tecnológica: a utilização das tecnologias genéticas de restrição de uso, que permitiriam de forma definitiva o controle sobre a reprodução e expressão das características das plantas. Até parece ficção científica. Mas, Monsanto, Syngenta e Dow já têm patentes sobre este tipo de tecnologia.



Este tema têm sido debatido na Convenção sobre Diversidade Biológica desde 2000, quando uma decisão repudiou a utilização deste tipo de tecnologia. No Brasil, a atual lei de biossegurança (Lei 11.105) proíbe a utilização das tecnologias genéticas de restrição de uso que gerem estruturas reprodutivas estéreis. Mas, tramita na Camara dos Deputados um Projeto de Lei com o objetivo de flexibilizar esta proibição.



A Carta de Notícias sobre a CDB deste mês traz mais informações sobre estes assuntos.CONFIRA:

 

 

1. Tecnologias Genéticas de Restrição de Uso : O Debate na CDB

 

Tecnologias Genéticas de Restrição de Uso (conhecidas pela Sigla em inglês – GURT) são tecnologias, que através da utilização da engenharia genética, permitem a manipulação da expressão das características dos seres vivos.

 

Existem dois tipos de Tecnologias Genéticas de Restrição de Uso: as T- GURT e as V-GURT. As T- Gurts (t vem do inglês trait – que significa característica) servem para condicionar determinadas características das plantas a indutores químicos externos (por exemplo, uma planta só geraria a resistência a um herbicida caso algum outro produto fosse usado para ativar esta característica). As V-Gurts (v vem do inglês variety) produzem plantas que geram sementes estéreis, impedindo a produção de sementes pelos próprios agricultores. Este tipo também é conhecido como “terminator”.

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2.  Pressão para liberar Tecnologias de Restrição de Uso continua no Brasil

 

A lei de Biossegurança proíbe a utilização para qualquer fim, o registro, o patenteamento e o licenciamento das tecnologias genéticas de restrição de uso que envolvam a geração de estruturas reprodutivas estéreis ou a ativação ou desativação de genes relacionados à fertilidade das plantas por indutores químicos externos.

 

No entanto, tramita na Câmara dos Deputados um Projeto de Lei (nº 268/2007) de autoria do deputado paranaense Eduardo Sciarra (DEM), que tem como objetivo modificar a atual lei de biossegurança, flexibilizando a atual proibição de utilização das tecnologias genéticas de restrição de uso

Saiba mais:

3 Tecnologias Genéticas de Restrição de Uso e Biossegurança: matando a sede com água do mar

 

A mais nova justificativa para a utilização das tecnologias genéticas de restrição de uso é sua utilização como uma “medida de biossegurança” para evitar a contaminação de plantas convencionais ou agroecológicas por variedades transgênicas.

 

A União Européia está investindo 5.38 milhões de euros no projeto Transconteiner, que tem como objetivo “desenvolver sistemas estáveis e eficientes de contenção para plantas geneticamente modificadas, para garantir a coexistência de plantas transgênicas com outros tipos de cultivos”.


O principal objetivo do projeto é desenvolver plantas geneticamente modificadas “que se auto-contenham” para evitar o risco de fluxo gênico e a contaminação de variedades orgânicas ou convencionais. No site do Projeto, afirma-se que as tecnologias desenvolvidas não implicarão em uma esterilidade permanente, uma vez que incluiriam mecanismos para reverter esta característica, através de indutores químicos externos.

 

A utilização das Tecnologias de Restrição de Uso como medida de biossegurança é mais uma falácia da indústria de biotecnologia.

 

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